Um acidente, dois Brasis
Wanderson estava, provavelmente, seguindo seu caminho em mais um fim de domingo normal, pensando talvez na semana, lá ocupado com sua vida. Thor estava também curtindo seu domingo, entre amigos, numa outra situação completamente diferente. Ambos se encontram, cada um no seu caminho de retorno. E esse encontro termina mal, muito mal. Um morre, o outro sai com o carro semidestruído e um pouco machucado. Mais um acidente, dos muitos que ocorrem principalmente entre os jovens, notadamente nos fins de semana.
Essa história do acidente de Thor e Wanderson, das diversas esquisitices que aconteceram no processo de investigação e apuração dos fatos (e que ainda ocorrem), e a defesa ferrenha de Eike Batista pela inocência do filho, demonstram, em mais um episódio, nosso país de contrastes. Muitos deles infelizes, e desnecessários. Prova de nosso atraso como sociedade.
Há grande manifestação popular e internética a respeito. Muitos condenam previamente Thor, por este ser rico, e o atropelado Wanderson, pobre. Com certeza ele tem culpa, dizem de antemão. Thor não ajuda muito também. Em seu histórico contam muitas multas por excesso de velocidade, uma habilitação irregular com 32 pontos a mais que o total máximo permitido (51 no total), e um atropelamento (de um senhor de 86 anos, em 2011). Há muito discurso apaixonado, misturado a debate ideológico nessa história. E pouca gente analisa os fatos, lembrando que estamos falando de uma vida que se perde, de mais uma tragédia, talvez por má criação e imprudência. De um jovem irresponsável, talvez inconsequente, e de um pai-leão, que defende o filho a qualquer custo, mesmo sabendo que seu filho, pode sim, também estar errado.
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Outro ponto é a atuação ferranha do pai-leão, Eike Batista, que parte em defesa automática do filho, declarando publicamente a certeza da inocência de seu já não tão jovem rebento. Mesmo sabendo do histórico anterior deste, mesmo devendo saber que o filho deveria ter a carteira suspensa por conta das faltas anteriores, não ofereceu o seu apoio ao filho para enfrentar a situação como adulto, como cidadão, seu apoio de pai. Oferece a solução total, rápida, o gerenciamento de crise, coisa que um consultor faz, um profissional solucionador de problemas. Enquanto que no final das contas, o que restou foi um homem morto. Tudo isso para proteger seu filho, não fazê-lo sofrer, deixando-o passar incólume pela vida. Sem máculas, sem trauma.
Wanderson poderia estar embriagado, como prova uma recente análise de seu sangue, e por conta disso ter forçado a situação do acidente por imprudência. Mas nada disso apaga os demais, ou anteriores, erros cometidos por Thor naquele domingo. Principalmente na hora de sentar no banco do motorista para dirigir seu carro no retorno a sua casa. Eike e Thor, trabalhando incessantemente para demonstrar que nada de errado aconteceu, apenas o imprevisível, deturpam o momento de luto da família abatida, destilando aí um certo sentimento de desdém pelo sofrimento alheio. A defesa agora é o ponto mais importante. Passar logo por isso, superar. E Thor, logo estará novamente nas ruas. Espero sinceramente que ao menos esse episódio tenha servido para ele ter finalmente perdido seu direito de dirigir, e passar por todas as sanções administrativas cabíveis. O apoio à família do morto é o mínimo que deve ser feito, não sendo mais que sua obrigação. Evidente que tendo ele mais recursos, poderá ampará-los de uma maneira mais ampla.
Se Thor tivesse respeitado o Código Nacional de Trânsito, e não dirigido, se o DETRAN tivesse efetivamente apreendido a licença do rapaz, mandado-o para um curso de reciclagem (compulsório, nessas circunstâncias), se Wanderson não bebesse tanto e saído sozinho para casa, teria havido o acidente? Talvez pela provável embriaguez deste último, o ocorrido teria pego outro motorista, não tão abastado, de surpresa, e toda a história passaria apenas para as estatísticas, e não para os jornais ou Internet… Há apenas um culpado a condenar, nestes termos? Que se faz para mudar? Uma reciclagem geral, é o que se precisa para estes Brasis tornarem-se um só.
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